São Paulo pela Lente da Higiene: as propostas de Geraldo Horácio de Paula Souza para a cidade (1925-1945)

Cristina de Campos
266 pags

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Prefácio

As Lentes do Sanitarista:
Um Foco Original sobre São Paulo (1925-1945)

Maria Lucia Caira Gitahy

História da cidade, história da saúde – surpreender este diálogo, essencial à construção da modernidade, foi o intuito da socióloga e urbanista Cristina de Campos neste livro de estréia, sob diversos aspectos, original. A pesquisadora foi buscar as lentes do sanitarista Geraldo Horácio de Paula Souza (1889-1951), figura pouco estudada, para fotografar os impasses da agitada São Paulo da década de 1920, pólo industrial em afirmação: “Arranha-céus/Fordes/Viadutos/Um cheiro de café no silêncio emoldurado”, como a captou Oswald de Andrade em um fragmento poético.
Nessa “capital do capital” (Ribeiro), as opções urbanísticas, pouco a pouco, deslocam seu foco do saneamento para a circulação. Caminho original para uma pesquisa sobre o urbanismo moderno: dispor-se a ouvir a voz do médico higienista que deixa a cena das decisões sobre a cidade, ouvir a voz de uma figura pouco lembrada pela historiografia, em um momento decisivo para a cidade.
E o que diz essa voz? Em consonância com muitos urbanistas da época, em especial os engenheiros, alerta que as grandes obras da assim chamada “era do saneamento” estavam concluídas em São Paulo, já naquela segunda década do século XX. No entanto, o médico destoa deles ao afirmar que é preciso ir além. Para ele, não bastava atuar sobre o habitat, não bastavam as obras civis para garantir a saúde pública na sociedade moderna. Uma rede de centros de saúde, cobrindo os múltiplos bairros da capital e a vasta área do Estado, assumiria o papel de difundir a educação sanitária às massas urbanas e rurais.
Sua concepção envolvia preparar não só a cidade, mas também o cidadão, para o mundo industrial de que passava a fazer parte o Brasil. Vislumbrava a educação de uma força de trabalho integrada ao mercado em crescimento nas cidades, integrada como trabalhadora, e também – por que não? – como consumidora. Esta proposta, aparentemente simples, foi de encontro às propostas das elites locais. Na realidade, esse enfoque tão funcional ao desenvolvimento capitalista industrial que se pretendia implementar envolvia algo que até hoje não foi completamente aceito no Brasil: a democratização do acesso à educação e à saúde como fundamento da construção da cidadania.
De fato, o relativo silêncio da historiografia em relação a esse diretor do Serviço Sanitário paulista e autor do Código Sanitário de 1925 não é fortuita. Recuperar a trajetória desse médico sanitarista ainda hoje está longe de ser tarefa simples. Membro de influente família da elite paulista, décimo sexto filho do engenheiro Antônio Francisco de Paula Souza, fundador da Escola Politécnica de São Paulo, e de mãe alemã, Ada Herwegh, Geraldo Paula Souza realizou estudos em São Paulo, Rio de Janeiro e Europa. Tendo obtido seu título de doutor em Higiene e Saúde Pública na primeira turma formada nessa especialidade pela Johns Hopkins University, em Baltimore, no ano de 1920, apoiado pela Rockfeller Foundation, o médico buscou difundir no Brasil uma nova concepção de saúde pública.
A análise de sua atuação, portanto, envolve a abordagem da complexa temática da influência norte-americana em São Paulo, com todas as contradições que evoca. Nesse particular, Cristina de Campos realiza um cuidadoso exame dos contatos europeus e norte-americanos estabelecidos pelo médico (oficiais e extra-oficiais) e dos fluxos de recursos, de especialistas e de valores, elaborando enfim um retrato matizado do intercâmbio, a partir de suas bases materiais e institucionais.
Assim, aponta a autora, se um eventual “americanismo” de membros das elites republicanas locais durante as primeiras décadas do século XX não chegava a ponto de aceitar a inclusão social das massas pela via do mercado, o “antiamericanismo” de seus críticos acabava colaborando para a manutenção da mesma exclusão. Apreço à democracia ou mesmo abertura a diferentes formas de inclusão social nunca foram fortes em nossa cultura política. A educação sanitária encontrou eco apenas mais tarde, na década de 1930, no âmbito de outra proposta que se queria inclusiva e democrática: a dos parques infantis, implementados por Mário de Andrade em sua curta passagem pelo Departamento de Cultura da Prefeitura Municipal.
Outro mérito do livro, ligado à cuidadosa abordagem já mencionada do papel das trocas internacionais e interdisciplinares presentes nos próprios dados biográficos do médico, é que ele tem grande relevância para a história da ciência e tecnologia, neste caso, com foco nas disciplinas acadêmicas e nas profissões ligadas à cidade e à saúde, concorrendo para o esclarecimento da história urbana e urbanística de São Paulo. Em relação a esta, outro aspecto do trabalho deve ser assinalado: a leitura do Código Sanitário quase como um Código de Obras é interessante e permite demonstrar que o modelo de saúde pública adotado por Geraldo Paula Souza não se restringia à capital, como sugere a historiografia, buscando atingir todo o espaço do Estado de São Paulo. Por fim, destaco a utilização da fotografia, fonte fundamental à história da cidade, tão cara às pesquisas produzidas pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade (FAU) de São Paulo, instituição em que o trabalho foi realizado.
Servindo-se de uma linguagem clara e isenta de jargão, Cristina de Campos apresenta ao público um livro conciso, dedicando seus capítulos sucessivamente ao sanitarista, à higiene e à cidade de São Paulo. O trabalho inscreve-se em um esforço teórico e histórico mais amplo de desvendamento da história da cidade do século XX no Brasil, cuja articulação seria impossível fora do arcabouço institucional proporcionado pelo Programa de Pós-graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, no qual foi defendido como dissertação de mestrado.
Este estudo leva em conta toda uma tradição de pesquisas sobre as relações entre a urbanização e o urbanismo, que teve lugar na FAUUSP, e ao mesmo tempo abre caminho para novas investigações, buscando lançar luz não apenas sobre a história, mas também sobre as opções do presente nos caminhos da saúde das cidades brasileiras.